4,5*
Pousou de novo a mão em cima da mesa. Ele seguiu o gesto com os olhos e penosamente compreendeu, levantou a dele, que pesava como chumbo, e pouso-a sobre a dela. As mãos deles estavam tão frias que se tocaram ilusoriamente apenas com essa intenção, para que ficasse feito, com a única intenção de que o ficasse, não de outro modo, já não era possível. As mãos deles ficaram assim, imóveis na sua pose mortuária.
Tal como um outro livro de Marguerite Duras que li há pouco tempo, este podia intitular-se a “A Doença da Morte”, pois também ela está entranhada em “Moderato Cantabile”, tanto pelo crime que faz a protagonista voltar inúmeras vezes ao café onde ele ocorreu, como nos vocábulos e imagens usadas pela autora, desde as magnólias murchas até aos repetidos ocasos.
Atraída por um crime aparentemente passional, Anne entabula conversa com Chavin, que estava presente aquando do incidente e está disposto a informar-se sobre o trágico casal para lhe satisfazer a curiosidade. Há álcool, cansaço e desespero nessa infeliz relação, fazendo-me lembrar “Os Cavalos Também se Abatem”, de Horace McCoy.
- Sangue na boca – disse ela -, e ele continuava a beijá-la, a beijá-la.
Recompôs-se: aquilo que disse era uma suposição sua?
- Eu não disse nada.
O poente estava agora tão baixo que atingia o rosto do homem. O corpo, de pé, ligeiramente apoiado ao balcão, recebia-o desde há instantes.
- Tendo-o visto, não podemos impedir-nos disso, não é verdade, é quase inevitável?
- Eu não disse nada – repetiu o homem. – Mas julgo que ele fez pontaria ao coração como ela lhe pedia.
Tendo este episódio sangrento desencadeado algo dormente nesta solitária mulher de classe alta, insone na sua mansão à saída de uma cidade costeira, centrada no encantador mas rebelde filho e nas suas lições de música, há um jogo de espelhos em que nos apercebemos do silêncio e angústia que caracteriza a vida da própria Anne, que no café, perante o jarro de vinho, se dá conta de uma sede que não consegue apaziguar.
“Moderato Contabile” é um texto compacto mas extremamente rico, escrito no estilo etéreo que tanto me agrada nesta autora.
-Muitas mulheres já viveram nessa mesma casa e ouviam as alfenas à noite em vez do coração. As alfenas estavam lá desde sempre. Essas mulheres morreram todas no seu quarto, por detrás dessa faia que, contrariamente ao que você julga, não cresce mais.
- É tão falso como o que me disse sobre essa mulher morta de bêbeda todas as noites.
(...)
- Despache-se a falar. Invente.
Ela fez um esforço, falou quase alto no café ainda deserto.
- O que seria preciso era habitar uma cidade sem árvores as árvores gritam quando há vento aqui há sempre à excepçãode dois dias do ano no seu lugar está a ver eu iria embora daqui não ficaria aqui todos os pássaros ou quase todos são pássaros do mar que se encontram mortos depois das tempestades (...).