Nesta obra, Garfinkel busca lançar as bases para o que ele chama de etnometodologia, em contraponto a outras teorias propostas. Para ele a etnometodologia seria a “investigação das propriedades racionais das expressões contextuais e de outras ações práticas como ‘acúmulos’ contínuos e contingentes das práticas engenhosamente organizadas da vida cotidiana”. Com isto, o autor colocar um relevo acentuado no senso comum, buscando entender seu funcionamento em termos de contextos. O que interessa, portanto, é o estudo da ação em contexto — a partir do uso de expressões contextuais compartilhadas —, o que acaba por distinguir nitidamente Garfinkel em relação a autores como Mead e outros “etiquetados” como interacionistas: enquanto o primeiro acentua a relevância da ação em contexto, os segundos enfatizam a teoria do papel e, assim, a idéia de ação associada a um determinado papel. E quando ele fala em contexto, ele enfatiza a sua polissemia, quando afirma que as expressões contextuais se aplicam a uma só coisa em casa ocasião de uso, mas a diferentes coisas em diferentes ocasiões, de modo que não existe um “contexto genérico” — tal qual propõe Mead, a partir da idéia de “outro generalizado”.
A etnometodologia enfatiza o caráter ativo, racional e cognitivo da conduta humano. Garfinkel afirma que uma teoria da ação estaria incompleta sem uma análise do modo como os agentes sociais compartilham o conhecimento e o raciocínio produzidos pelo senso comum na condução de seus assuntos comuns, pois é isto que permite com que os membros de um grupo se orientem a partir de linhas de ação realistas e pactuadas. Tais linhas de ação são sustentadas por um complexo de suposições, admissões tácitas e métodos de inferência — em suma, um conjunto de métodos — que informa a produção de objetos e ações significativos, e também a compreensão. São estes métodos de raciocínio do senso comum e suas propriedades — que orientam a ação no contexto — que constituem o objeto de pesquisa da etnometodologia. Para elucidar, o autor afirma: “o sentido reconhecido do que uma pessoa diz consiste somente e completamente em conhecer o método de sua fala, em ver como fala”.
O “método”, cujo sociólogo deve depositar suas observações, permite, portanto, constantes codificações e decodificações no contexto, o que seria impossibilitado caso o agente não fosse reflexivo, no sentido de possuir um tipo de consciência prática. Esse processo de codificação e decodificação permite a compreensão comum entre os membros de um grupo. Para observar este “método”, a partir do qual as pessoas agem, Garfinkel propõe a observação das atividades mais comuns do cotidiano — que podem indexar ao método —, a análise da situação concreta, do significado encontrado na fala e no contexto e a observação dos detalhes de tal contexto. Garfinkel parece se interessar em como o indivíduo se realiza e, neste sentido, mostra o ser como derivação do fazer. Não existe um “agente em si”, em constante criação, mas sim agências (racionais, é válido lembrar).