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A Castro

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Colecção: Livros de Bolso Europa-América, #547

Ao pôr em confronto a razão de Estado com o direito à vida e ao amor, António Ferreira fez da Tragédia mui sentida elegante de Dona Inês de Castro uma das mais belas obras da literatura portuguesa.

A Castro foi a primeira tragédia clássica escrita em português, e não em latim, e não seria possível encontrar obra nem tema que melhor inaugurassem o classicismo em Portugal.

100 pages, Paperback

First published January 1, 1587

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António Ferreira

86 books16 followers
António Ferreira is a portuguese poet and humanist, considered to be one of Portugal's great Renaissance poets.

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Profile Image for Katya.
485 reviews
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April 17, 2022
Se há que seja memorável em peças clássicas como Oresteia, de Ésquilo, Édipo Rei, de Sófocles ou Bacantes, de Eurípides (Séneca etc etc) é a presença constante de vários conceitos clássicos.

Entre eles figuram:

•a hýbris: desrespeito pelos deuses, destino...
•o miasma: a espécie de maldição que cabe a todos os que rodeiam o indivíduo que pratica a hybris
•a ananké: a fatalidade que obriga os personagens a determinadas ações no decorrer da ação


Em Castro, de António Ferreira, estão cada um destes bem presentes e vincados:

•a hýbris, no ato de amor clandestino dos personagens;
•o miasma, na perpetuação da desobediência de D. Afonso na pessoa de seu filho, D. Pedro;
•a ananké, na ordem de execução de D. Inês por d. Afonso apesar da sua relutância.


Mais ainda, António Ferreira vai buscar elementos fundamentais da Poíesis de Aristóteles como:

•catarse, cathársis ("limpeza de emoções"): a compreensão do público das suas próprias emoções pela mimese; ou seja, a libertação pelo distanciamento, a empatia;
•errro: personagens cometem erro que expiam com consequências trágicas - o designado páthos;
•clímax, o crescendo da tensão afetiva criada até ao seu desfecho - a peripécia.

E para encerrar com chave de ouro, há a referir que os elementos que compõem a tragédia clássica estão também presentes em A Castro:

•Prólogo (enunciação)
•Párodo (entrada do coro, que já não sai do palco até ao fim da representação)
•Episódios/estásimos
•Êxodo


Tudo isto junto e temos uma obra incomparável na literatura portuguesa (renascentista ou outra).

"O mais importante aspecto a considerar na obra de António Ferreira é, por ventura, a sua tentativa de introdução do teatro clássico, e sobretudo da tragédia, na língua portuguesa. A sua tragédia Castro constitui sem dúvida uma das mais felizes tentativas quinhentistas, em toda a Europa ocidental, para a ressurreição da tragédia grega."
(In, História da literatura portuguesa, de A. J. Saraiva & Óscar Lopes)


Ávidos consumidores da tragédia clássica, os europeus renascentistas consumiram igualmente os ensinamentos de Aristóteles que, não lhes chegando, foram acrescentados.
Por exemplo, para Aristóteles a tragédia opõe-se à epopeia pela unidade de ação e pela sua duração de um dia.
Para o renascimento, a lei mais importante é a das "três unidades": unidade de ação, unidade de tempo e unidade de lugar.

Em Castro, anterior a estas novas formulações, o tempo da ação corresponde a mais de um dia e esta decorre em diferentes espaços, mas isso não lhe diminui o efeito.
O seu ponto alto é, claro está, o encontro fatídico de D. Inês com D. Afonso (até pela demonstração de valores do renascimento como A razão de Estado - a aretê do herói clássico, porque não?- que, honestamente, me interessam muito menos do que os clássicos).

Esta edição chegou-me às mãos vinda de anterior/a leitor/a tão ou mais apaixonado/a pela tragédia do que eu e que teve o cuidado de corrigir pela própria mão as inúmeras gralhas que se encontram texto fora, nomeadamente repetição e falta de versos e a incorreta identificação das partes que compõem o texto. Infelizmente, nada se pode fazer quanto às opções de transcrição do original renascentista, mas isso será um mal menor hoje em dia (falo pessoalmente, claro). Este cuidado, por si só, valorizou ainda mais toda a experiência!

Resumindo:
A Castro, "Tragédia mui sentida e elegante de D. Inês de Castro" versa sobre os amores ilegítimos de D. Inês e D. Pedro e seu cruel desfecho. Não se passou assim, mas se se tivesse passado a vida teria toda outra poesia.



"INFANTE
...Inimigo
Me chamo teu, inimigo teu me chama.
Não me és pai, não sou teu filho, inimigo sou.
Tu, Senhora, estás lá nos Céus, eu fico, Enquanto te vingar: logo lá voo.
Tu serás cá Rainha, como foras.
Teus filhos, só por teus serão Infantes.
Teu inocente corpo será posto
Em Estado Real: o teu amor
Me acompanhará sempre, até que deixe
O meu corpo com o teu; e lá vá esta alma Descansar com a tua para sempre.

FIM"


P. S.
Qualquer erro no grego clássico (e no português contemporâneo) é de minha inteira responsabilidade ;)
Profile Image for Márcio.
683 reviews1 follower
July 30, 2024
Creio que uma boa parte dos falantes da língua Portuguesa conhecem a história de Inês de Castro, ou ao menos a expressão Agora é tarde, Inês é morta, o que indica que é tarde demais para que se possa tomar uma atitude acerca de algo.

E é uma pequena parte da história de Inês de Castro que António Ferreira utilizou-se para escrever a peça A Castro, de 1587, em especial a pressão exercida sobre o rei D. Afonso IV de Portugal no ano de 1355 para condenar, por razões de Estado, a morte de Inês, amante e mãe de três filhos do príncipe Pedro. O texto aqui foi adaptado por Júlio Dantas em 1920.

Pela brevidade do texto e das cenas, fica-se a desejar mais informações sobre a história trágica desse casal, em especial da origem de Inês de Castro, de nobre família galega e aia da primeira esposa do princípe Pedro, por quem esse se apaixonou e com quem se casou em segredo. Também quase nenhuma explicação se dá, mesmo que levemente, acerca da pressão da nobreza portuguesa com receio da influência castelhana sobre o príncipe, futuro rei.

Também fica-se por desejar pelo ponto cuminante de todo esse enredo, que foi a vingança de D. Pedro I, portanto já rei, contra aqueles que assassinaram D. Inês. É considerado que o beija-mão da defunta rainha faz parte da tradição popular.

No entanto, são essas duas cenas que conseguiriam elevar ainda mais a dramaticidade da peça, sendo que ao permanecer nas declarações de amor entre Pedro e Inês, e o cerco de Inês pelo rei D. Alfonso IV e seus aulixiares, as suplicas da dama ao Rei, concentra-se mais nos elementos dramáticos, e não nos trágicos.

Profile Image for tiago..
464 reviews135 followers
February 21, 2022
É fácil perder-se na torrente infinita de obras literárias feitas sobre o mito de Pedro e Inês; mas esta, de António Ferreira, não perde nenhum do seu atrativo por se encontrar entre as primeiras - publicada uns escassos quinze anos após Os Lusíadas . Nela, o papel de protagonista move-se inesperadamente de D. Pedro e D. Inês para D. Afonso IV, dividido entre a necessidade da morte de D. Inês e a crueza da sentença. É, no fundo, e como se põe na sinopse, um debate entre as razões de Estado e o direito à vida e ao amor, que nos conduz até um apoteótico final em que D. Pedro jura vingança e eterno rancor aos assassinos da Castro.

Toda a peça (porque duma peça de teatro se trata) é feita em verso, como é de usança nestes tempos renascentistas; mas o que é realmente curioso nesta pequena obra é o seu seguimento dos cânones da tragédia grega, completa com coro grego e presságios tenebrosos do destino que se aproxima, tal como postulados por Aristóteles na sua Poética e à boa maneira de clássicos como o Édipo Rei de Sófocles. É talvez isto algo comum na literatura portuguesa seiscentista; não o saberia dizer, por desconhecimento de causa; mas, dizendo que é a primeira vez que vejo uma obra assim, acrescento que isto lhe confere uma solenidade muito sui generis, um gosto muito seu.

Possa esta resenha servir para desenterrar esta e outras pepitas da literatura clássica portuguesa. É uma experiência que vale bem a pena.
Profile Image for Harvey Hênio.
628 reviews2 followers
October 19, 2025
António Ferreira (1528? /1569) foi um escritor e humanista português. Considerado por muitos como o “Horácio (célebre poeta romano que viveu de 65 AC a 8 AC) lusitano” foi um dos maiores poetas do classicismo renascentista de língua portuguesa. Apesar de muitos especialistas o considerarem um dos maiores poetas da língua portuguesa muitos detalhes acerca de sua biografia não são conhecidos. No entanto sabe-se que teve ótimas carreiras no meio acadêmico (doutorou-se em 1555 na prestigiada Universidade de Coimbra) e no serviço público (exerceu o importante cargo de Desembargador da Casa do Cível). Faleceu lamentavelmente com apenas 40 anos (ou 41) vítima da “Grande Peste” que assolou a cidade de Lisboa na segunda metade do século XVI. Não viveu para ver a sua obra publicada o que só aconteceu em 1598 com a publicação de “Poemas Lusitanos” onde está incluída a tragédia “Castro”.
“Castro” (também conhecida como “A Castro” ou ainda “Tragédia de Inês de Castro”) é sua obra mais conhecida e ela foi claramente inspirada em fatos reais da história medieval portuguesa.
O pano de fundo histórico de “Castro” é por demais conhecido: Durante meados do século XIV em terras lusitanas, o infante e herdeiro do trono português, Dom Pedro, casado com Dona Constança, uma princesa castelhana, mantinha um tórrido romance com a cortesã Dona Inês de Castro com quem inclusive teve filhos. O rei de Portugal e seu pai, Dom Afonso se incomodava com o romance clandestino do filho pois temia estremecer as já delicadas relações com a coroa de Castela. A morte de Dona Inês é então tramada pelo rei pressionado por seus dois mais próximos conselheiros, os “maquiavélicos” Pacheco e Coelho. A morte prematura de dona Constança deu esperanças a Dona Inês de que sua relação com o infante poderia ser oficializada mas o mundo da política tinha outros planos pois, estando o infante livre no “mercado” dos casamentos arranjados, abre-se uma possibilidade de acordos de natureza política que a existência de Dona Inês ameaçava. Sendo assim, parafraseando o mestre Cartola, para Dona Inês o mundo foi um mesquinho moinho que triturou seus sonhos em pedacinhos e a condenou à morte.
“Castro” é uma excelente oportunidade de tomar contato com um texto impecável escrito num português belissimamente castiço mas de forma alguma ininteligível mesmo para leitores pouco afeitos ao português de Portugal. É totalmente compreensível o entusiasmo de Rafael Domingos de Souza, tradutor e editor, na introdução da versão de “Castro” veiculada pelo “Clube de Literatura Clássica” quando acerca da obra escreveu que:

“Este livro é um grande tesouro da língua portuguesa. Possui a primeira sequência de sonetos composta por um poeta português (os sonetos de Camões são peças esparsas, sem formar uma sequência propriamente dita), e toda a organização do livro, bem como seu teor, são uma das maiores expressões do pensamento humanista de seu país: pois tal era Ferreira, o único grande poeta de seu tempo a ter frequentado a universidade, além de ter feito toda a sua carreira em Portugal, sem se aventurar nos novos territórios conquistados além-mar pela Coroa. Sua associação com a universidade e com a cidade de Coimbra imprimem um caráter muito próprio à sua poesia. Podem-se destacar: a sobriedade de sua expressão, a imitação constante dos poetas romanos, especialmente de Horácio; o pacifismo, ao contrário de outros poetas da época que glorificavam a expansão portuguesa e a virtude guerreira, uma das razões por que Ferreira não se aventurou a compor o grande épico lusitano; e o distanciamento do povo e da cultura popular, em prol da cultura erudita e livresca (como fica claro na primeira ode do primeiro livro: “Fuja daqui o odioso / profano vulgo”, imitando o “Odi profanum vulgo” de Horácio)”.

Chamou sobremaneira a minha atenção os dilemas do rei de Portugal atormentado pelo peso que o poder punha nas suas costas. Afinal de contas ele, pessoalmente, nada tinha contra Inês de Castro. Num determinado momento ele indaga:

“Não é crueza matar quem não tem culpa?”
E seu cruel conselheiro Coelho responde:
“Muitos podes matar sem culpa, mas com causa”.

No início da cena 2 é tocante a solidão do rei frente aos já citados dilemas e tormentos trazidos pelo poder:

“Senhor, que está nos céus e vês as almas,
Que cuidam, que propõem, que determinam:
Alumia minh´alma, não se cegue
No perigo em que está. Não sei que siga.
Entre medo e conselho fico agora:
Matar injustamente é grã crueza,
socorrer a mal público é piedade.
Düa parte receio, mas doutra ouso.
Ó filho meu, que queres destruir-me!
Há dó desta velhice tão cansada,
Muda essa pertinácia em bom conselho.
Não dês ocasião pera que eu fique
Julgado mal na Terra e condenado
Ant´aquele grã juiz que está nos céus”.

E na cena três do ato III, o rei se arrepende e diz:

“Afronta-se minh´alma. Ò quem pudera
Desfazer o que é feito’.

Ao que o onipresente coro responde:

“Já morreu Dona Inês, matou-a amor.
Amor cruel! Se tu tiveras olhos,
Também morreras logo. Ó dura morte,
Como ousaste matar aquela vida?”

Esses fortes trechos de “Castro” permitem dizer, a meu ver sem sobra de dúvidas, que António Ferreira antecipou William Shakespeare (1564/1616) que em suas tragédias costumava também elucubrar acerca dos dilemas e fardos impostos pelo exercício do poder.
Excelente!!!!
Profile Image for Sónia.
821 reviews51 followers
September 13, 2015
Gostei bastante do enredo, sendo sobre Pedro e Inês era impossível não gostar, mas a escrita, por ser tão arcaica, foi um pouco difícil para eu ler.
Profile Image for Ivo.
100 reviews3 followers
March 4, 2018
Some of the language made it a little hard to parse at times, but it's generally engaging and beautiful. I really like that Pedro and Inês don't share any time on stage until the very end.
Profile Image for Simão Pedro.
103 reviews1 follower
May 31, 2023
Tour pela história da literatura portuguesa:

>Época clássica: Período Renascentista (poesia dramática)
Profile Image for Sandro Helmann.
310 reviews
August 22, 2024
Apesar dos arcaísmos e da sintaxe que por vezes confunde a leitura, não é difícil ler os versos dessa peça, considerada uma das mais importantes da literatura portuguesa quinhentista.
Profile Image for Juni Pontes.
43 reviews1 follower
October 21, 2024
Esta linda peça do renascimento português trata do romance de D. Inês de Castro com o Infante D. Pedro que deu origem à expressão: "Agora, Inês é morta!".
Antônio Ferreira, que optou por escrever uma tragédia nos moldes do teatro clássico grego, aborda este episódio sob o prisma do conflito entre as razões de Estado e o indivíduo. Todos os personagens expõem perspectivas em torno desta questão, principalmente o rei D. Afonso que reluta em resolver uma crise política à custa de sangue inocente.
A peça é estruturada em 5 atos e escrita em belos versos que, surpreendentemente, são de razoável compreensão para o leitor hodierno, se comparados às obras de Camões.
Profile Image for Dani.
131 reviews26 followers
October 18, 2023
Provavelmente nunca teria pegado nesta obra senão fosse pela cadeira de literatura portuguesa.
Aqui encontramos a trágica história de amor entre D. Pedro I e D. Inês de Castro. Devo dizer que sempre adorei a história deles, sempre me despertou interesse, e sempre tive pena que tenha acabado em tragédia.
A única razão pela qual não dou 5 estrelas ao livro deve-se ao facto de ser difícil perceber certos excertos do texto.
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