O paulista, natural da cidade de Taubaté, José Bento Renato Monteiro Lobato (1882/1948) é uma das expressões máximas de nossa literatura. Escritor, crítico de arte e editor corajoso (foi o único no Brasil a publicar Lima Barreto quando quase ninguém nele acreditava), seu nome é quase que automaticamente ligado à literatura infantil, principalmente ao ciclo de histórias ligadas ao “Sítio do Pica-Pau Amarelo” já adaptado para várias mídias além dos livros e um grande sucesso. No entanto Monteiro Lobato, como é conhecido o escritor, tem uma produção que vai muito além de suas inegáveis contribuições à literatura infantil e vale muito a pena conferir o que existe “além do sítio”.
Desafortunadamente aquele que considero um dos grandes escritores da literatura nacional em todos os tempos, um esteta do nosso idioma, dono de um senso de humor mordaz, detentor de uma grande capacidade de observação da realidade em que ele então vivia e de um senso crítico que demolia sem dó nem piedade as instituições e tradições da época, encontra-se, hoje em dia, “cancelado” em função de um pretenso racismo que permearia as suas obras.
Beatriz Resende, professora titular do departamento de letras da UFRJ, especialista na obra de Monteiro Lobato e organizadora do excelente e obrigatório “Contos Completos”, lançado em 2014 e que reúne os quatro livros de contos lançados pelo autor (“Urupês”/1918, “Cidades Mortas”/1919, “Negrinha”/1920 e “O macaco que se fez homem”/1923) afirmou com propriedade e convicção, na apresentação desse livro o seguinte:
“Basta a leitura de “Negrinha” para compreender toda a tolice que envolve as críticas feitas a momentos de sua literatura em que reproduz o linguajar racista de seus contemporâneos. As falas evidentemente irônicas da boneca Emília, por exemplo, são o eco da sociedade racista, classicista, escravocrata que atravessa o século XX e chega até hoje convencida de que espaços como as universidades não se devem abrir aos pobres, aos diferentes e vêm na ainda tímida política de cotas uma heresia e nas condenações penais por racismo um excesso”.
É uma pena pois aqueles que preferem fingir que o grande escritor que Monteiro Lobato foi nunca existiu privam-se da experiência ímpar que é tomar contato com a grande literatura que ele produziu. E esse “cancelamento” torna-se mais nefasto ainda pois impossibilita até mesmo o debate, a discussão, a contextualização e a avaliação desse pretenso racismo que muitos insistem em identificar em sua obra. Creio piamente que essa “era do cancelamento” vai passar. Até lá paciência! Muita paciência!
“Negrinha” é, na minha opinião o melhor dos livros de contos de Monteiro Lobato em função da inclusão de dois contos em particular; o pungente “conto título” “Negrinha” e o tragicômico “O colocador de pronomes”. Interessante como o autor consegue nos tocar em emoções de naturezas diferentes. Como não se emocionar com “Negrinha”?
“Menina órfã, nascida de mãe escrava, “Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados”. Ao perder a mãe, com apenas quatro anos “por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés”.[...] “Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão”.[...] “Aprendeu a andar, mas quase não andava”.
Sua senhora, a cristã-mor, pilar da comunidade – Dona Inácia – não se conformava com a abolição:
“O treze de maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou das mãos a gana. Conservava Negrinha em casa como remédio para os frenesis. Inocente derivativo.
- Ai! Como alivia a gente uma boa roda de cocres bem fincados!.”
Obrigada a ficar imóvel num canto da casa “Negrinha imobilizava-se no canto, horas e horas.[...] Cruzava os bracinhos a tremer, sempre com o susto nos olhos. E o tempo corria. E o relógio batia uma, duas, três, quatro, cinco horas – um cuco tão engraçadinho! Era seu divertimento vê-lo abrir a janela e cantar as horas com a bocarra vermelha, arrufando as asas. Sorria-se então por dentro, feliz um instante[...]”.
“Que ideia faria de si essa criança que nunca ouvira uma palavra de carinho? Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata-choca, pinto gorado, mosca morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa ruim, lixo...”
Pois, em função dos caminhos e descaminhos da vida em um belo dia, Negrinha, subitamente e por um certo tempo, foi tratada como gente mas, tão rápido como chegou, esse tempo passou e a menina descobriu-se incapaz de voltar ao que era pois:
“Negrinha, coisa nenhuma, percebeu nesse dia da boneca que tinha uma alma. Divina eclosão! Surpresa maravilhosa do mundo que trazia em si e que desabrochava, afinal, como fulgurante flor de luz. Sentiu-se elevada à altura de ente humano. Cessara de ser coisa – e doravante ser-lhe-ia impossível viver a vida de coisa. Se não era coisa! Se sentia! Se vibrava!”.
Tente não se emocionar com a íntegra do texto e com o contundente final. Sem dúvida alguma uma das mais belas páginas da nossa rica literatura.
O outro conto “clássico dos clássicos” é “O colocador de pronomes” que trata da saga epopeica do destemido e ao mesmo tempo, desastrado Aldrovando Cantagalo, o “apóstolo do idioma pátrio”, um anti-herói tão quixotesco e emblemático quanto o Policarpo Quaresma de Lima Barreto e o Dr. Simão Bacamarte de Machado de Assis. Aldrovando Cantagalo, aquele que “veio ao mundo em virtude de um erro de gramática e morreu, afinal, vítima de um novo erro de gramática”. Inimigo dos “galicismos” e dos “anglicismos” e outros “ismos” que conspurcavam o amado idioma pátrio, Aldrovando dedicou a sua vida à pureza do idioma de Camões chegando a propor em ofício ao congresso leis severíssimas contra todos aqueles e aquelas que atentassem contra a pureza gramatical tanto no falar quanto no escrever. Propôs o “apóstolo”:
“Leis, senhores, leis de Dracão, que diques sejam, e fossados, e alcaçares de granito prepostos à defensão do idioma. Mister sendo, a forca se restaure, que mais o baraço merece quem conspurca o sacro patrimônio da sã vernaculidade, que quem o semelhante a vida tira. Vêde, senhores, os pronomes, em que lazeira jazem...”
“O colocador de pronomes” é hilariante, tragicômico e de leitura obrigatória para quem gosta de histórias bem contadas e personagens marcantes.
Mas tem muito mais excelentes contos em “Negrinha”.
Confira o dramático “O drama da geada”, o pungente “O jardineiro Timóteo”, os mordazes “A facada imortal” “Os pequeninos” e “A policitemia de dona Lindoca”, e os ótimos contos de terror (isso mesmo meus caros e caras, terror e dos bons) “Os negros” e “Bugio moqueado” além do surpreendente “Barba Azul”.
Para finalizar um conselho: “cancele o cancelamento” e leia Monteiro Lobato.
Nada menos do que excelente!