«Ressureição» é a história de um casamento aprovado por todos, que não se realiza devido aos ciúmes infundados do noivo.
O que falta a Félix, esse noivo indeciso, é a energia necessária para constituir família e tornar-se membro participante da sociedade.
Félix é médico, tem 36 anos, «idade em que muitos já são pais de família, e alguns homens de Estado.» É um homem complexo, caprichoso, mundano, incoerente, instável, play-boy, bon vivant: os seus amores não duravam mais de um semestre.
«O amor era para mim o idílio de um semestre, um curto episódio sem chamas nem lágrimas.»
Naquela época - e até nos tempos que correm -, entendia-se que era pelo casamento que homens e mulheres se tornavam membros efectivos da sociedade.
Machado não analisa a instituição do casamento mas as razões que levam um homem a não casar.
Machado não quis fazer um romance de costumes mas um esboço «de uma situação e o contraste de dois caracteres», Félix e Lívia, uma viúva com um filho ainda criança.
A sua ideia ao escrever este seu primeiro romance foi pôr em acção um pensamento de Shakespeare:
Our doubts are traitors,
And make us lose the good we oft might win,
By fearing to attempt
Uma certa fragilidade do enredo (uma personagem que aparece de repente, uma carta anónima, por ex.) é compensada por um narrador não protagonista mas opinativo, conselheiro e antecipador.
«Dispondo de todos os meios que o podiam fazer venturoso, segundo a sociedade, Félix é essencialmente infeliz» escreve Machado no final do livro. É caso para perguntar por que razão o nomeou de Félix? Paradoxo da alma humana ou ironia do destino?
Félix, na opinião acertada do narrador, não alcançará a felicidade pois é daquela classe a quem cabe a reflexão do poeta :«perdem o bem pelo receio de o buscar.»
O amor do médico teve dúvidas póstumas, mas, no final, continuou erradamente a acreditar que a ex-noiva era uma dissimulada.
Félix é já potencialmente um Dom Casmurro; Lívia soube retirar-se da vida pública, «mas do mesmo modo que a beleza não lhe acordara vaidades, assim a decadência não lhe inspira terror.»; «os poucos que lhe frequentam a casa (…) reparam (…) [que] é ainda hoje a mesma feiticeira amável de outro tempo.»
Embora este romance esteja bastante próximo do estilo de José de Alencar, Machado tem já sua voz própria e escreve um esboço do que viriam ser as extraordinárias personagens Bento Santiago e Capitolina.
Sempre tive curiosidade sobre este romance não só por ser o primeiro de Machado mas também pelo título.
Por que razão ressurreição, que, como católica, associo à Páscoa, a celebração da morte e da ressurreição de Jesus? Ressuscitou dos mortos ao terceiro dia após a crucificação, conforme as Escrituras.
Como o título escolhido sintetiza o intuito da obra?
A ressurreição pela via amorosa não se concretiza – Félix é um homem indeciso, influenciável, preza a sua independência e não é determinado ao casamento.
Não há uma ressurreição para uma nova vida, mas um retorno à vida anterior:
«[Félix] Não a [felicidade] há de alcançar nunca, porque o seu coração, se ressurgiu por alguns dias, esqueceu na sepultura o sentimento da confiança e a memória das ilusões.» pág. 132
Um Félix que anteriormente tinha dito à sua noiva que ela o tinha ressuscitado fazendo o milagre de lhe conceder alguns dias de felicidade sem mescla, mas que a obra não estava completa. Adverte que exige uma confiança não de uma hora, mas de todos os dias pois sem ela o seu amor será um largo martírio.
Uma advertência injusta pois Lívia era confiável, honesta.
Félix não sai bem no retrato, mas, mesmo assim, ainda há quem diga que Machado era impiedoso com as personagens femininas que criou.
«A vida é uma ópera bufa com intervalos de música séria.», como diz uma das personagens (um homem) a Félix.
Li algures que oferecer um livro é um elogio. Sinto-me elogiada. Obrigada, Paula Mota!